Arquivo do mês: junho 2012

Cinza-cor

As gotas despencam pesadas na janela do quarto. Os pensamentos vem e vão, influenciados pela incessante melodia da chuva rompendo dos céus. Em minha mente surgem lembranças; lembranças extintas, distantes, coisas que só ressurgiam quando a chuva caía.

No céu cinza e tempestuoso vejo um pássaro. Voa raso, desvia sofregamente de pingos errantes. Evita os postes e carros que, indiferentes, passam espalhando a água das poças pelas calçadas. luta desesperadamente, batendo as asas molhadas, em sua tentativa vã de permanecer no ar. Um único pássaro no universo incolor.

Sobriamente, um homeme caminha pela rua. Apressa o passo, sem perder a postura. Gotas caem em seu negro guarda-chuva, e algumas até mesmo ousam molhar seu terno elegante. Olha para o relógio, preocupado. Cruza a esquina.

O mundo gira desavisado, em meio ao aparentemente corriqueiro na paisagem de São Paulo, floresta pálida e cinza. Suas árvores são grandes edifícios, imponentes colossos, de tal quantidade que ultrapassam os limites da pequena percepção humana. Selva de pedra, concreto e argamassa, tão descolorida e ao mesmo tempo tão cheia de vida.

Vida que vem e que vai, água que ascende e que cai, em compassos descompassados. Ritmo alucinante, espetáculo palpitante que flui nas veias, artérias da rua. Do padeiro ao banqueiro, do juiz ao pedreiro, todos juntos em uma só chuva, em um só cinza que de cinza se desfaz.

Cada gota uma vida, cada gota uma história, perdida no tempo que célere passa. Somente resquícios permanecem, aprisionados nas gotas cristalinas; e retornam, imprudentes, ao ressoarem na janela. Lembranças do que já foi, do que será. Parecendo insignificantes se comparadas à míriade de gotas no oceano urbano. Uma gota cai no asfalto, uma gota cai no vidro da janela. Gotas escorregam da face e caem no assoalho. Lágrimas cinza-cor.