Arquivo da categoria: Poesia

Querida, eu só queria te encontrar
Não precisa ser assim nada demais
Mas só pra me dizer como é que vai
A vida.

Capaz que o tempo torne as nossas peles enrugadas
E a cada dia nossos dias mais corridos
Aí quem saberia quando vamos conversar
De novo?

Querida, eu só queria outra vez ver-te
Mesmo que assim bem brevemente
Pois só o teu sorriso já me faz
Contente.

Vai ver a gente encontra um ou dois temas em comum
E até você se alegre por um breve instante
Talvez

Querida, não me leve a mal
Que o ponteiro do relógio não tarda a andar
O que peço não é muito, veja lá
Eu só queria te encontrar

Anúncios

Somente isso

Eu escreveria
Se minhas representações mentais
Pudessem ser traduzidas em palavras.
Mas não podem.
Por isso me calo.


Girassóis

Giram os girassóis, giram sem parar
Sol após sol, lua após lua
Giram e desgiram, como se o mundo nunca fosse se acabar

Eu queria ser como o girassol
E não esperar nada mais além do dia seguinte
Eu queria ser amor e não amar
Eu queria ser paixão e não desejar
Eu queria abraçar o destino como uma dádiva
Eu queria girar ao sabor do vento
Não sentir o tempo
Nem carregar nas costas o presente, as promessas

Mas girassol não sou, sou apenas humano
Sofro por querer o que não posso ser
Por querer o que não posso ter
Sofro porque acima de tudo
O que quero é você


A prisão dos sentidos

Veja os vitrais multiplexos
As cores dispersas
As velas acesas
Brilhando, fulgindo

Ouça as vozes pulsantes
O vento errante
As notas harmônicas
Soando, fluindo

Cheire o lírio do campo
Os livros da estante
O ar desse instante
Cercando, fugindo

Entre no caleidoscópio
Se embriagando
Em vã fantasia
Chorando, sorrindo

Chame de realidade
E viva sonhando
Em coma profundo
Amando, sentindo


Eumundo

Rede que liga mundos discrepantes, conflitantes
Fina teia entrelaça mentes distantes, cambaleantes
E somos um só?
Somos todos
A unidade na diversidade
A explosão dos egos
Eu me sou e também sou você
Você me é, uma coisa só
Vertem velozes os vórtices
De vidas vivendo a se engolir
Passam perdidas partidas
Presas em perenes ilusões
Acorda! Somos nós, é o mundo, aqui!
Venho visitar a vossa vivenda
Para gritar que se rompam
Libertem do caos
Alice avistou a borboleta a voar
Vento, ventania a levou
Vasos dilataram-se, bateu o coração
Um, dois. Que vem. Que vai.
Tudo isso somos nós
E nós somos o mundo
A identidade, a ida, o destino
Sem barreiras, sem casca, sem nó
Sem casulo. Livre. Um.


Palavras

Algumas vezes faltam palavras.
Não, sempre.
Palavras.
Há coisas que não conseguem se fazer expressas em palavras.
Muitas coisas.
Quase tudo.
No entanto palavras quase sempre é quase tudo que se tem.
Ainda que não seja exato, que talvez jamais será.
Nunca serão plenamente entendidas.
Palavras são tudo e quase nada.
Palavras são a tentativa desesperada de romper a barreira dos egos.
Do abismo que nos separa.
Às vezes eu gostaria que você soubesse tudo o que eu queria dizer.
Eis aqui meu coração pulsante, cheio de sangue, toma e vê.
Às vezes eu gostaria de conhecer o teu.
Mas algumas vezes, todas as vezes, faltam palavras.
E palavras são tudo que nós temos.
Ou quase tudo.


Cinza-cor

As gotas despencam pesadas na janela do quarto. Os pensamentos vem e vão, influenciados pela incessante melodia da chuva rompendo dos céus. Em minha mente surgem lembranças; lembranças extintas, distantes, coisas que só ressurgiam quando a chuva caía.

No céu cinza e tempestuoso vejo um pássaro. Voa raso, desvia sofregamente de pingos errantes. Evita os postes e carros que, indiferentes, passam espalhando a água das poças pelas calçadas. luta desesperadamente, batendo as asas molhadas, em sua tentativa vã de permanecer no ar. Um único pássaro no universo incolor.

Sobriamente, um homeme caminha pela rua. Apressa o passo, sem perder a postura. Gotas caem em seu negro guarda-chuva, e algumas até mesmo ousam molhar seu terno elegante. Olha para o relógio, preocupado. Cruza a esquina.

O mundo gira desavisado, em meio ao aparentemente corriqueiro na paisagem de São Paulo, floresta pálida e cinza. Suas árvores são grandes edifícios, imponentes colossos, de tal quantidade que ultrapassam os limites da pequena percepção humana. Selva de pedra, concreto e argamassa, tão descolorida e ao mesmo tempo tão cheia de vida.

Vida que vem e que vai, água que ascende e que cai, em compassos descompassados. Ritmo alucinante, espetáculo palpitante que flui nas veias, artérias da rua. Do padeiro ao banqueiro, do juiz ao pedreiro, todos juntos em uma só chuva, em um só cinza que de cinza se desfaz.

Cada gota uma vida, cada gota uma história, perdida no tempo que célere passa. Somente resquícios permanecem, aprisionados nas gotas cristalinas; e retornam, imprudentes, ao ressoarem na janela. Lembranças do que já foi, do que será. Parecendo insignificantes se comparadas à míriade de gotas no oceano urbano. Uma gota cai no asfalto, uma gota cai no vidro da janela. Gotas escorregam da face e caem no assoalho. Lágrimas cinza-cor.